
“ Haveria em mim algo que valesse a pena? Algo de puro, de bom. Algo doce e suave de onde pudesse escolher o melhor alimento, o melhor vinho, o melhor paladar. Haveria em mim longas tardes mornas e um colo quente onde abrigar o teu sono, os teus sonhos, o teu prazer? Haveria em mim a dose certa de medo e coragem para ser mulher e menina? Para ser mãe e filha? Para fazer o pão, deixar crescer a massa, aquecer o forno, com delicadeza e sabedoria... e a certeza do alimento certo... a simplicidade necessária às grandes descobertas... Haveria? Haveria em todas as horas a certeza e a dúvida, o prazer e o medo... Haveria a necessidade da procura... A certeza do encontro...”
Por quanto tempo deixei descansar o poema...
Poema não se cansa, nem descansa como massa para pegar ponto.
Poema perde o ponto.
Esse perdeu.
Perdeu o ponto do sentimento vivo.
Poesia se faz só com sentimento vivo.
Sentimento morto, congelado e embalado em tapperwear
perde o gosto, perde a graça, perde o tom...
Perdi o tom do poema supracitado
em garrafais itálicos entre aspas nervosas
histericamente espetadas como os cabelos de quem tomou um choque!
Entrei em choque ao perceber o inegável, o assustador fato de que passados parcos quatro meses de sua “paridura” o meu pobre poema envelheceu e já não o reconheço, como já não reconheço o medo e a dúvida vivos no sentimento que era dono do poema.
O sentimento que hoje reconheço me enche de rasas lágrimas os olhos,
me aperta docemente o peito e me arrepia o corpo.
O sentimento que hoje reconheço não oprime, não pressiona, não discute.
O sentimento que hoje reconheço faz parte do dia como faz parte da alma,
faz parte da vida como faz parte da morte, sem medo, sem pressa, sem dor.
O sentimento que hoje reconheço acorda comigo todas as manhãs e me diz bom dia.
O sentimento que hoje reconheço dorme comigo e está nas preces que encaminho ao céu todas as noites dizendo: Graças a Deus!
Nenhum comentário:
Postar um comentário