sábado, fevereiro 04, 2012

Sobre Arnaldo Bloch, Zuenir Ventura, Chico Buarque e Luiza que já voltou do Canadá.

Eu não fui, nem vou ao show do Chico, não por que não queira, mas porque é caro e como o início de ano costuma ser difícil, me falta grana pra isso. Mas iria como fui aos outros, que acontecem, como bem disse o caro Arnaldo Bloch, na coluna de hoje no Globo, como uma nova Copa do Mundo. Pra mim, bem mais que isso, já que detesto futebol assumidamente, apesar de sofrer com as exclamações de surpresa de todos que estupefactos não podem compreender uma coisa simples. Eu não gosto de futebol, nem em Copa, nem em taças disso ou daquilo, nem em lugar nenhum! Mas respeito os adeptos contanto que não se matem dentro dos estádios, como aconteceu essa semana no Egito. Mas não era sobre futebol esse texto, voltemos ao que interessa.  

"Chico não tem mais a relevância que tinha!" Afirmou categoricamente o interlocutor do Bloch. E quem está preocupado com relevância, meu caro? Nos preocupemos apenas com a poesia que tanto nos falta nesse dias de fim de mundo próximo. Como artista, cantora, atriz, meio poeta penso a tal relevância como necessidade básica do artista com os seus próprios caminhos ainda que trilhados na solidão dos teatros vazios, na necessidade de compartilhar idéias que tantas vezes ninguém quer ouvir. 

E continua o interlocutor: "E o cara não emplaca um sucesso há 30 anos!" Que tal uma carreira de sucesso de mais de 30 anos? Serve como parâmetro? Perguntaria eu em coro com Arnaldo: "O que é, hoje, emplacar um sucesso?" Respondo aqui na minha condição de artista independente: Emplacar um sucesso é poder pagar as suas contas com o fruto do seu trabalho, é ter o respeito dos seus pares e poder, enfim, viver de arte. Mas é difícil...   

Me lembro do dia em que me retirei para o mato porque precisava ficar sozinha para escrever um espetáculo, um monólogo, caso de vida ou morte! Escrevi, montei, sobrevivi e me mantive firme com a ajuda dos amigos de sempre no palco, com a presença dos amigos de sempre na platéia e uns tantos outros que foram conquistados discretamente durante os espetáculos. Até o dia em que feliz em ter uma linda matéria na última edição impressa do JB (não consigo me conformar com o fim do JB impresso...) encerrei a temporada por falta de público. O espetáculo era um fracasso? Era ruim? O texto, as músicas, a atriz eram todos ruins?... Não. Não éramos todos ruins... Mas, talvez não tivéssemos relevância. Quem quer assistir um espetáculo intitulado "Palavra de Mulher - Uma jornada poética e musical pela alma feminina"? Quem quer ouvir Clarice Lispector, Olga Savary, Adélia Prado, Marina Colasanti, Tania Horta, Eduarda Fadini? (Edu quem?!?) Quem quer ouvir Ary Barroso, Tom Jobim, João Bosco, Chico Buarque? Esse último ao menos ainda tem uma porcentagem ínfima de fãs que vem lotando o Vivo Rio no último mês. Quem quer ouvir Dorival Caymmi, meu Deus? Mas afinal, o que importa? É a minoria, são apenas 14%, membros de uma elite.  

Fui sentenciada por alguns amigos: O espetáculo não tem humor. É verdade, não tinha. Nem tudo na vida tem ou precisa ter humor. Nem tudo precisa "emplacar um sucesso" pra ser bom. Nem tudo tem que ser de fácil digestão... O nó na garganta nos faz próximos, porque nos reconhecemos na dor que, mesmo velada, carregamos. A beleza, as delicadezas, aqueles momentos que nos trarão lágrimas doces aos olhos, ainda que alegres, felizes, não são necessariamente engraçados. Podemos e devemos aprender a rir de nossos próprios problemas e tornar a vida mais leve, mas a alegria não reside somente na gargalhada. A alegria existe no encontro consigo mesmo através do olhar do outro e esse outro somos nós, artistas irrelevantes para as massas que caminham de braços dados com a certeza de que só a arte salva. 

(Vale ler a matéria de capa do Segundo Caderno hoje, Teatro do Insano, com o dramaturgo dinamarquês Christian Lollike falando sobre a necessidade de um teatro que desestabilize o público colocando-o frente a frente com as tragédias humanas e fazendo-o pensar sobre a própria posição diante das atrocidades.) 

Mas quem quer ser salvo? Salvo dos mega shows que lotam estádios? Salvos dos maiores sucessos chiclete da última semana? Salvo da enxurrada de BBBs e mais pencas de celebridades instantâneas como macarrão de copinho, sem sabor e sem nenhum nutriente que preste. Quem não sabe que Luiza já voltou do Canadá e está faturando uma nota preta com o seu novo sucesso? Seu novo sucesso na música? Não, não. No teatro? Não, não. Na televisão então? Não, não. Seu novo sucesso em: Nada. Nada. Eu confesso! Ontem assisti parte do show do Michel Teló no Multishow e, realmete, o rapaz é bem chatinho, mas ao menos toca sanfona! Já vi muita cosa por aí vinda dos quatro cantos do mundo muito pior! E veja bem, tem muito funk e pagode muito piores que as musiquinhas dele e muita gente culta por aí defende como cultura popular, numa confusão com cultura de massa! Acho que pegaram o loirinho pra cristo. Não vi muita diferença pros shows de umas moças lá da Bahia. Pronto falei! E não podemos esquecer das mulheres fruta, importantíssimas. Tudo tão importante, tão relevante, todos sucessos emplacados, abalizados pelas mídias, pela internet... Pelo povo, pela massa.  

Zuenir Ventura nos informa em seu artigo de hoje também no Globo (a dura realidade, vivemos numa cidade que só tem um grande jornal), O poder da irrelevância, que vivemos numa sociedade assolada por memes, "equivalente cultural de gene, o meme é capaz de se replicar, passar de uma mente para outra e se disseminar de maneira viral". Traduzindo: é o bordão, bebê! Todo mundo sabe o que é isso, menos Luiza que está no Canadá. Opa! Luiza já voltou! Ai como eu tô bandida! Eu super entendo o que ele quis dizer!  

Super...  

E se Zuenir nos explica que "no processo de comunicação de massa, a transmissão é tão ou mais importante do que a missão ou a recepção" eu temo por todos nós que vivemos escravos dos meios, da alegria do facebook, da cafonice do orkut, da sei lá o quê do twitter. Nós que somos irrelevantes para uma sociedade tão relevantemente irrelevante...  

Também nos disse o Bloch que "atribuir-se uma superioridade “verdadeira”, de caráter absoluto, à cultura culta, sobre as manifestações de maior apelo popular resvala no fascismo, o oposto também. Dizer que só o gosto das massas é nobre e que a sofisticação é formalismo de elite equivale a perseguir o refinamento, tornar o intelectual um pária, um degenerado, um hermético, inimigo do entendimento. A idéia de que a força está com a maioria fez sucesso tanto nos colossos de esquerda quanto nos populismos totalitários de extrema direita".  

Eu já levantei bandeiras e as carreguei bem alto, já esperneei diante da TV. Hoje apenas lanço aqui um desabafo, alentado pelo Arnaldo e o Zuenir. E onde mais lançar? Na internet, num blog que ninguém lê, no facebook aguardando todos os comentários polêmicos, no twitter não dá pra postar, só vai o link, no orkut também não que tá muito cafona. Mas ainda assim, a gente espera que qualquer coisa possa chamar a atenção das pessoas pras nossas idéias e o nosso trabalho possa um dia ser reconhecido e a gente possa enfim ter um dinheirinho pra ver o Chico cantar pras minorias irrelevantes desse país relevantemente irrelevante. 

Quase todos os meus amigos já foram, menos Luiza que depois que voltou do Canadá, anda muito ocupada formando opinião.

terça-feira, julho 06, 2010

Palavra de Mulher


Foto: Alvaro Mutay


Critério - Eduarda Fadini

Por que me aprisiono entre portas estreitas?
Por que a permanência inerte nos umbrais sombrios?
Por onde entra a luz difusa que me iluminas as idéias?
Por onde penetra esse odor?

Entre rotas de fuga, mapas, ações sem critério
Arrombo portas, cadeados, cadeias
Fujo de mim mesma no espelho
E já não há luz que chegue

Perdendo tempo
Perdendo o medo
Perdendo o sono
Perdendo mais

Nunca haverá tempo que baste
Nunca haverá fome demais
Nunca haverá flores no outono
Nunca haverá nunca mais

Eu tracei a rota dos meus passos
Antes do tempo que conheço
Sei de mim até o fim dos cabelos
E não descobri nada de mais

segunda-feira, setembro 25, 2006


“ Haveria em mim algo que valesse a pena? Algo de puro, de bom. Algo doce e suave de onde pudesse escolher o melhor alimento, o melhor vinho, o melhor paladar. Haveria em mim longas tardes mornas e um colo quente onde abrigar o teu sono, os teus sonhos, o teu prazer? Haveria em mim a dose certa de medo e coragem para ser mulher e menina? Para ser mãe e filha? Para fazer o pão, deixar crescer a massa, aquecer o forno, com delicadeza e sabedoria... e a certeza do alimento certo... a simplicidade necessária às grandes descobertas... Haveria? Haveria em todas as horas a certeza e a dúvida, o prazer e o medo... Haveria a necessidade da procura... A certeza do encontro...”


Por quanto tempo deixei descansar o poema...
Poema não se cansa, nem descansa como massa para pegar ponto.
Poema perde o ponto.
Esse perdeu.
Perdeu o ponto do sentimento vivo.
Poesia se faz só com sentimento vivo.
Sentimento morto, congelado e embalado em tapperwear
perde o gosto, perde a graça, perde o tom...
Perdi o tom do poema supracitado
em garrafais itálicos entre aspas nervosas
histericamente espetadas como os cabelos de quem tomou um choque!

Entrei em choque ao perceber o inegável, o assustador fato de que passados parcos quatro meses de sua “paridura” o meu pobre poema envelheceu e já não o reconheço, como já não reconheço o medo e a dúvida vivos no sentimento que era dono do poema.

O sentimento que hoje reconheço me enche de rasas lágrimas os olhos,
me aperta docemente o peito e me arrepia o corpo.
O sentimento que hoje reconheço não oprime, não pressiona, não discute.
O sentimento que hoje reconheço faz parte do dia como faz parte da alma,
faz parte da vida como faz parte da morte, sem medo, sem pressa, sem dor.
O sentimento que hoje reconheço acorda comigo todas as manhãs e me diz bom dia.
O sentimento que hoje reconheço dorme comigo e está nas preces que encaminho ao céu todas as noites dizendo: Graças a Deus!